As Pombagiras Estão no Livro de São Cipriano?
Uma Investigação Histórica Sobre um dos Maiores Mitos da Espiritualidade Brasileira por Alexia Melusine.
Entre as inúmeras afirmações repetidas sobre as Pombagiras, poucas são tão comuns quanto esta:
"Todas as Pombagiras vieram do Livro de São Cipriano."
A frase aparece em vídeos, fóruns, grupos espirituais e até mesmo em alguns livros populares. Entretanto, quando observamos a questão sob uma perspectiva histórica, percebemos que a realidade é muito mais complexa — e muito mais interessante.
A resposta curta para a pergunta que dá título a este artigo é: sim e não.
As Pombagiras modernas não surgiram dentro do Livro de São Cipriano da forma como são conhecidas atualmente na Umbanda e na Quimbanda. Porém, existe uma relação histórica profunda entre o imaginário cipriânico, a magia popular ibérica e algumas das entidades que mais tarde seriam cultuadas nos terreiros brasileiros.
Para compreender essa relação, precisamos voltar alguns séculos.
O Primeiro Equívoco: Não Existe Um Único Livro de São Cipriano
Quando alguém fala em "Livro de São Cipriano", geralmente imagina uma obra única, fixa e imutável. Historicamente, isso não é verdade.
Ao longo dos séculos surgiram dezenas de versões atribuídas a São Cipriano. Algumas foram publicadas em Portugal, outras na Espanha e muitas no Brasil. Certas edições são relativamente pequenas. Outras possuem centenas de páginas. Algumas se aproximam de compilações religiosas populares. Outras assumem claramente a forma de grimórios, reunindo feitiços, orações, simpatias, encantamentos, invocações e narrativas sobrenaturais.
Em outras palavras, não existe um único Livro de São Cipriano. Existe uma tradição cipriânica composta por múltiplas versões, frequentemente modificadas, ampliadas e adaptadas conforme a época e o local de publicação. Essa constatação já muda completamente o debate.
O Que Realmente Aparece Nessas Obras?
Ao analisar as versões mais conhecidas do Livro de São Cipriano, encontramos diversos elementos ligados à magia popular europeia:
- Encantamentos amorosos;
- Orações de proteção;
- Invocações espirituais;
- Histórias de pactos;
- Relatos sobrenaturais;
- Práticas associadas a cemitérios;
- Mistérios das encruzilhadas;
- Fórmulas para atrair ou afastar influências espirituais.
Curiosamente, muitos desses temas também aparecem no universo simbólico das Pombagiras. Mas isso não significa que as Pombagiras nasceram ali. Significa apenas que ambos compartilham referências pertencentes a um mesmo imaginário mágico popular.
O Caso Especial de Maria Padilha
É aqui que a história se torna fascinante. Entre os diversos nomes associados ao Livro de São Cipriano, um deles se destaca: Maria Padilha.
Ao contrário do que muitos imaginam, Maria Padilha não nasceu na Umbanda nem na Quimbanda. Ela foi uma personagem histórica real. Maria de Padilla viveu no século XIV e foi companheira do rei Pedro I de Castela. Sua figura permaneceu viva no imaginário popular espanhol muito depois de sua morte.
Com o passar dos séculos, seu nome começou a aparecer associado a práticas mágicas, feitiçaria popular e tradições esotéricas da Península Ibérica. Posteriormente, Maria Padilha passou a surgir em algumas versões do Livro de São Cipriano. É justamente esse detalhe que deu origem a uma das maiores confusões históricas sobre as Pombagiras.
Três Marias Padilhas Diferentes
Um erro recorrente consiste em tratar todas as Marias Padilhas como se fossem a mesma figura. Na prática, podemos identificar pelo menos três camadas históricas distintas:
- A Maria Padilha Histórica: Uma mulher real que viveu na Espanha medieval.
- A Maria Padilha da Magia Popular: Uma personagem que passou a integrar encantamentos, tradições esotéricas e grimórios ibéricos.
- A Maria Padilha Espiritual: A entidade cultuada na Umbanda e na Quimbanda contemporâneas.
Embora essas três camadas estejam conectadas, elas não são idênticas. Ao longo dos séculos ocorreu um processo de fusão simbólica que transformou uma figura histórica em um poderoso arquétipo espiritual.
A Origem Afro-Brasileira das Pombagiras
Aqui encontramos uma conclusão frequentemente ignorada. As principais Pombagiras cultuadas atualmente não possuem origem direta verificável dentro do Livro de São Cipriano:
Maria Mulambo • Sete Saias • Rosa Caveira • Dama da Noite • Rainha das Almas • Rainha do Cruzeiro • Rainha da Figueira • Menina • Cigana
Essas entidades surgem dentro do desenvolvimento religioso brasileiro, especialmente a partir dos processos de formação da Umbanda, da Quimbanda e de outras expressões espiritualistas populares. Ou seja: elas não podem ser explicadas apenas pela literatura cipriânica.
A Teoria Mais Consistente
Ao analisar a formação das Pombagiras sob uma perspectiva histórica, a hipótese mais sólida é que elas nasceram da convergência de múltiplas tradições:
- Magia Ibérica: Portugal e Espanha contribuíram com grimórios, lendas, encantamentos e personagens como Maria Padilha.
- Catolicismo Popular: Orações, santos, devoções, almas e práticas religiosas populares também exerceram influência.
- Matrizes Afro-Brasileiras: Os cultos de ancestralidade, os Exus, as encruzilhadas e as experiências religiosas desenvolvidas no Brasil foram fundamentais para a formação das Pombagiras como as conhecemos hoje.
O resultado não foi uma simples cópia de nenhuma dessas tradições. Foi o surgimento de algo novo.
A Conclusão Contra-Intuitiva
Talvez a conclusão mais surpreendente seja esta: O Livro de São Cipriano não criou as Pombagiras.
Na verdade, o que ocorreu foi um processo de absorção cultural. Os terreiros brasileiros herdaram, reinterpretaram e transformaram determinados símbolos que já circulavam na magia popular europeia. Maria Padilha foi uma dessas heranças. Mas a entidade espiritual que hoje recebe esse nome tornou-se algo muito maior do que sua origem histórica.
Reduzir as Pombagiras ao Livro de São Cipriano é simplificar excessivamente um fenômeno religioso complexo. As Pombagiras são resultado de séculos de encontros culturais, trocas simbólicas e reconstruções espirituais realizadas em solo brasileiro. Talvez essa seja precisamente sua característica mais fascinante. Elas não pertencem exclusivamente à África, à Europa ou ao Brasil. Pertencem ao cruzamento desses caminhos. E talvez seja justamente por isso que continuam despertando tanta curiosidade, devoção e mistério até os dias atuais.