Onde as Pombagiras Aparecem na História? Uma Jornada Pelos Lugares Que os Livros Quase Nunca Mostram
Uma investigação sobre a história das margens, das encruzilhadas e das figuras silenciadas pelos vencedores, por Alexia Melusine.
Quando se fala em história, a maioria das pessoas imagina impérios, reis, guerras, revoluções e grandes personagens que tiveram seus nomes registrados nos livros oficiais. Mas existe outra história, muito menos visível, que corre paralela àquela ensinada nas escolas.
É a história das margens. A história das pessoas comuns. A história dos esquecidos.
É justamente nesse território que as Pombagiras parecem surgir com mais força. Uma das perguntas mais interessantes que um pesquisador pode fazer é: onde exatamente as Pombagiras aparecem na história mundial? A resposta pode surpreender.
Ao contrário do que muitos imaginam, as Pombagiras raramente aparecem associadas aos grandes acontecimentos políticos ou militares da humanidade. Não encontramos seu nome nas Cruzadas, no Império Romano, na Revolução Francesa ou nas Guerras Mundiais. Mas isso não significa ausência; significa outra forma de presença.
As Pombagiras habitam uma camada da história que quase nunca foi registrada pelos vencedores. Elas aparecem nas encruzilhadas culturais, nas tradições orais, nos cultos populares, nas práticas espirituais femininas e nos espaços ocupados por pessoas que dificilmente tiveram voz nos documentos oficiais.
Antes do Brasil: As Raízes Africanas do Arquétipo
Um dos equívocos mais comuns é acreditar que a Pombagira nasceu integralmente em território brasileiro. O nome é brasileiro. A forma religiosa organizada que conhecemos hoje também. Mas muitos dos elementos que compõem o arquétipo da Pombagira são muito mais antigos.
Entre povos de matriz Bantu e Congo-Angola já existiam concepções espirituais relacionadas aos cruzamentos entre mundos, aos ancestrais, aos espíritos ligados aos caminhos e às forças femininas associadas à transformação, ao mistério e à passagem entre planos. Não estamos falando da Pombagira como é conhecida atualmente, mas de estruturas simbólicas que, séculos depois, ajudariam a formar sua identidade religiosa.
A escravidão atlântica trouxe essas visões para o continente americano, onde passaram a dialogar com outras tradições.
As Feiticeiras Esquecidas da Península Ibérica
Muito antes do surgimento da Umbanda, Portugal e Espanha possuíam uma vasta tradição de mulheres ligadas às práticas populares de cura, benzimento e encantamento.
Entre os séculos XV e XVIII, documentos inquisitoriais registraram inúmeras acusações contra parteiras, curandeiras, adivinhas e mulheres que afirmavam trabalhar com espíritos ou forças invisíveis. Muitas dessas mulheres realizavam trabalhos relacionados ao amor, à proteção, à fertilidade e à resolução de conflitos afetivos. Os inquisidores frequentemente descreviam essas práticas como superstição, feitiçaria ou pacto demoníaco.
Embora não fossem Pombagiras, diversos estudiosos observam semelhanças simbólicas importantes entre essas figuras históricas e os arquétipos femininos que mais tarde apareceriam nas religiões afro-brasileiras. O que chama atenção é que essas mulheres ocupavam uma posição muito semelhante: respeitadas por alguns, temidas por outros e constantemente marginalizadas pelas instituições oficiais.
O Atlântico Negro e o Nascimento de Novas Tradições
Talvez um dos momentos mais importantes para compreender o surgimento das Pombagiras esteja nas rotas atlânticas da escravidão.
Durante mais de três séculos, milhões de pessoas atravessaram o oceano carregando idiomas, crenças, memórias e práticas espirituais. Africanos, indígenas, portugueses, espanhóis, cristãos populares, ciganos e diversos outros grupos acabaram compartilhando experiências e conhecimentos. Nesse ambiente de intensa mistura cultural surgiram formas religiosas inteiramente novas.
A Pombagira moderna pode ser compreendida como resultado desse processo histórico. Não pertence exclusivamente a uma única origem; ela é fruto de encontros, adaptações e transformações que ocorreram ao longo de séculos.
Portos, Mercados e Zonas Boêmias: Os Cenários Esquecidos
Existe um aspecto pouco discutido quando se fala sobre a história das Pombagiras. Muitos dos ambientes associados simbolicamente a elas eram espaços de circulação intensa de pessoas e culturas: portos, mercados, tabernas, casas de dança e regiões boêmias.
Locais frequentados por marinheiros, comerciantes, trabalhadores, escravizados libertos, artistas, viajantes e mulheres que viviam fora dos padrões sociais da época. Esses lugares funcionavam como verdadeiros laboratórios culturais. Foi neles que crenças se misturaram, símbolos foram reinterpretados e novas formas de espiritualidade ganharam vida. Não por acaso, muitas imagens associadas às Pombagiras carregam elementos ligados à noite, ao movimento, à liberdade e às encruzilhadas da vida humana.
A Formação da Umbanda e o Surgimento da Pombagira Moderna
Embora seus elementos simbólicos sejam muito antigos, a figura religiosa da Pombagira como a conhecemos hoje é relativamente recente. Nas primeiras décadas da Umbanda, as entidades mais conhecidas eram os Caboclos e os Pretos-Velhos. Os Exus e as Pombagiras ainda não ocupavam o protagonismo que possuem atualmente.
Com o passar do tempo, especialmente ao longo do século XX, essas entidades passaram a ganhar espaço e reconhecimento dentro de diversos segmentos da religiosidade afro-brasileira. Esse desenvolvimento é importante porque mostra que as tradições espirituais não são estáticas: elas evoluem, adaptam-se, absorvem novos significados e continuam dialogando com as necessidades das comunidades que as mantêm vivas.
As Mulheres Que a História Tentou Esquecer
Talvez o aspecto mais profundo da história das Pombagiras esteja relacionado às mulheres marginalizadas ao longo dos séculos: curandeiras, parteiras, viúvas, mulheres independentes, trabalhadoras sexuais e mulheres acusadas de feitiçaria. Mulheres que sobreviveram em contextos hostis sem o apoio das estruturas tradicionais de poder.
A associação automática entre Pombagira e prostituição é uma simplificação que não faz justiça à complexidade do fenômeno. No entanto, existe um vínculo histórico importante. Muitas mulheres que ocupavam posições consideradas inadequadas pela sociedade acabaram sendo transformadas em símbolos de perigo, sedução ou transgressão. Em muitos contextos espirituais, essas figuras foram posteriormente ressignificadas como exemplos de resistência, autonomia e força.
A Influência das Tradições Ciganas
Outro elemento frequentemente presente em algumas linhas de Pombagira é a influência dos imaginários ciganos: vestimentas coloridas, joias, dança, liberdade de movimento e mistério. Esses elementos foram incorporados em determinadas manifestações religiosas ao longo do tempo. Daí surgem figuras conhecidas como Pombagira Cigana ou Pombagira Sete Saias. Mais uma vez, não se trata de uma origem única, mas de um processo de absorção simbólica ocorrido ao longo da formação cultural brasileira.
O Feminino Sombrio e os Paralelos Internacionais
Em estudos comparativos sobre religião e mitologia, alguns pesquisadores observam semelhanças simbólicas entre certas características atribuídas às Pombagiras e figuras femininas presentes em diferentes culturas, como Hécate, Lilith, Morrigan e Kali.
Essas comparações não significam que sejam a mesma entidade, nem indicam qualquer relação direta de origem. O que existe são aproximações simbólicas: figuras associadas ao limiar entre mundos, ao poder feminino, à transformação, à sexualidade, ao mistério, à morte e ao renascimento. Esses temas aparecem repetidamente em diferentes civilizações, sugerindo que determinados arquétipos atravessam culturas e épocas distintas.
A Grande Contradição Histórica das Pombagiras
Existe uma ironia fascinante. As Pombagiras são extremamente conhecidas dentro do imaginário religioso brasileiro, mas quase nunca aparecem nos grandes livros de história. E talvez esse seja justamente o ponto: elas não pertencem aos palácios, pertencem às ruas. Não surgem nos registros dos governantes, surgem nas memórias do povo. Não vivem nos monumentos oficiais, vivem nas narrativas transmitidas oralmente de geração em geração.
Por isso, quem procura as Pombagiras apenas nos arquivos tradicionais encontra muito pouco. Mas quem observa os mercados, os portos, as encruzilhadas, os cemitérios, os terreiros e as histórias populares começa a perceber algo diferente.
Talvez a verdadeira história das Pombagiras nunca tenha sido escrita pelos vencedores. Talvez ela tenha sido preservada por aqueles que a história oficial quase sempre deixou de lado. E é justamente por isso que seu estudo continua tão fascinante: porque compreender as Pombagiras não é apenas estudar entidades espirituais; é também estudar a memória de povos, mulheres, culturas e experiências humanas que sobreviveram apesar do silêncio dos registros oficiais. E talvez seja exatamente nesse silêncio que parte de seus maiores mistérios ainda permaneça guardada.