Ensaio — Pombagiras.com

Pombagira e as Pessoas LGBT+

O acolhimento que muitos encontram — e as verdades que quase ninguém tem coragem de discutir

Alexia Melusine Julho 2026 Ensaio

Por que tantas pessoas LGBT+ encontram acolhimento espiritual nas linhas de Pombagira?

A resposta mais comum costuma ser simples demais. Dizem que "Pombagira aceita todo mundo". Outros afirmam que "Pombagira protege as pessoas LGBT+". Há ainda quem transforme essa relação numa espécie de doutrina, como se sempre tivesse existido.

Nenhuma dessas respostas, isoladamente, explica o fenômeno. A realidade é mais profunda, mais complexa e, justamente por isso, mais interessante.


O primeiro equívoco

Não existe, nas formulações clássicas da Umbanda ou da Quimbanda, uma doutrina que determine que Pombagira seja "a entidade das pessoas LGBT+". Essa associação é contemporânea. Ela se fortalece sobretudo nas últimas décadas do século XX e no início do século XXI, quando movimentos sociais, transformações culturais e novas leituras das religiões afro-brasileiras passaram a dialogar de forma mais intensa.

Isso não diminui a importância dessa aproximação. Apenas impede que projetemos no passado uma narrativa construída no presente.


O que realmente aproxima?

Talvez a pergunta esteja errada. Talvez as pessoas LGBT+ não procurem primeiro a Pombagira. Talvez procurem um lugar onde não precisem negociar a própria existência.

Durante muito tempo, inúmeras pessoas viveram conflitos entre fé, família, identidade e pertencimento. Em diferentes tradições religiosas, muitas relataram culpa, rejeição, tentativas de "correção" ou exclusão comunitária. Quando encontram um espaço onde são recebidas antes de serem julgadas, a experiência espiritual ganha outro significado.

Nesse contexto, a identificação com Pombagira nasce menos da orientação sexual e mais da experiência compartilhada de ter vivido às margens.


A grande inversão

Há um detalhe frequentemente ignorado. A própria Umbanda e a própria Quimbanda também conheceram a marginalização. Durante décadas, terreiros foram alvo de preconceito, criminalização e perseguição. Seus praticantes foram acusados de feitiçaria, superstição ou satanismo.

Quando religiões historicamente discriminadas acolhem pessoas também discriminadas por outros motivos, cria-se uma convergência simbólica poderosa. Não porque todas as casas sejam iguais. Não porque toda liderança religiosa pense da mesma maneira. Mas porque duas histórias distintas de exclusão podem encontrar um ponto de diálogo.


A Pombagira nunca representou o conforto

Esse talvez seja o aspecto mais mal compreendido. Pombagira não é, tradicionalmente, uma entidade que confirma expectativas sociais. Ela rompe convenções.

É associada ao desejo, à autonomia, ao corpo, à palavra afiada, à elegância, à justiça, à sedução, à firmeza e, em muitas narrativas, à figura feminina que se recusa a ocupar o lugar que outros determinaram para ela.

Essa força simbólica ressoa com pessoas que passaram boa parte da vida ouvindo que deveriam esconder quem são.

Não porque suas trajetórias sejam idênticas. Mas porque ambas desafiam categorias rígidas.


O que costuma ser omitido

Existe uma narrativa muito difundida segundo a qual "na Umbanda todo mundo é aceito". Isso não corresponde à realidade de todos os contextos. Os terreiros são diversos. Existem comunidades profundamente acolhedoras. Existem comunidades conservadoras. Existem diferenças de tradição, liderança, formação, história local e interpretação religiosa.

Transformar essa pluralidade numa única história apaga justamente aquilo que torna essas religiões tão ricas: sua diversidade interna.


O mito da mediunidade como prova de identidade

Uma das ideias mais persistentes afirma que homens que incorporam Pombagira seriam necessariamente gays, ou que mulheres que incorporam Exus masculinos revelariam algo sobre sua identidade.

Essa leitura não encontra sustentação consistente nas tradições religiosas. Na prática ritual, entidades femininas e masculinas podem manifestar-se por médiuns de diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Confundir mediunidade com sexualidade reduz experiências espirituais complexas a estereótipos simplificadores.


A questão que quase ninguém faz

Talvez o debate nunca tenha sido sobre orientação sexual. Talvez a pergunta seja outra.

Por que tantas pessoas precisaram abandonar comunidades religiosas para conseguir permanecer espiritualmente vivas?

Essa pergunta desloca o foco. Ela deixa de investigar apenas quem frequenta os terreiros e passa a examinar as estruturas sociais que produziram exclusão.


Entre símbolo e realidade

É importante distinguir experiência espiritual de generalização. Há pessoas LGBT+ que encontraram nas linhas de Pombagira um espaço de reconstrução da autoestima, da fé e do pertencimento. Há outras que não viveram essa experiência. Há terreiros acolhedores. Há terreiros onde persistem conflitos e preconceitos.

Reconhecer essa diversidade não enfraquece a espiritualidade. Ao contrário. Impede que ela seja reduzida a slogans.


A verdade mais incômoda

Talvez Pombagira nunca tenha sido um símbolo exclusivo de um grupo. Talvez ela represente algo ainda mais profundo.

A possibilidade de permanecer inteiro quando o mundo insiste em fragmentar identidades.

É por isso que tantas pessoas diferentes se reconhecem diante dela. Não porque compartilhem a mesma história. Mas porque compartilham o desejo de existir com dignidade.

E, talvez, seja justamente aí que reside uma das maiores forças simbólicas das Pombagiras: recordar que o sagrado não pertence apenas aos que sempre ocuparam o centro. Em muitas tradições afro-brasileiras, ele também se manifesta nas encruzilhadas, nas margens e nas trajetórias de quem precisou reconstruir a própria vida depois da exclusão.